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Scotland, ye bonnie land X

A estrada para Glasgow e o lento adeus às Highlands




A viagem de Inverness para Glasgow foi feita em duas etapas, com uma paragem para almoço pelo meio. Saímos da auto-estrada quando a fome começou a apertar, sem saber onde iríamos parar. O que nos calhou na rifa foi uma pequena e pitoresca vila, Carrbridge coroada ao centro pela ponte de pedra mais antiga das Terras Altas. Por vezes, o inesperado e o não programado acaba por ser uma agradável surpresa. 
Não poderíamos ter pedido melhor sítio para o nosso piquenique, seguido de um belo café numa pequena confeitaria que, outrora, abrigara o antigo posto dos correios. Familiar e acolhedora, assim é Carrbridge - vale bem a pena o desvio da estrada principal por entre o pinhal denso e antiquíssimo.






O resto da viagem foi marcada por chuva miudinha e algumas nuvens, que conferiam alguma densidade à paisagem e condiziam com o nosso estado de espírito. Deixar as Terras Altas para trás, apesar de entusiasmadas com o que nos faltava viver em Glasgow na reta final da nossa viagem, foi um processo lento e doloroso. Havia muita coisa a arrumar dentro de nós e demos graças por este tempo de estrada à nossa frente, que nos permitiu começar a colocar os pensamentos em ordem.





Ev'ry road thro' life is a long, long road,

Fill'd with joys and sorrows too,

As you journey on how your heart will yearn
For the things most dear to you.
With wealth and love 'tis so,
But onward we must go.
Keep right on to the end of the road,

Keep right on to the end,

Tho' the way be long, let your heart be strong,
Keep right on round the bend.
Tho' you're tired and weary still journey on,
Till you come to your happy abode,
Where all the love you've been dreaming of
Will be there at the end of the road.
With a big stout heart to a long steep hill,

We may get there with a smile,

With a good kind thought and an end in view,
We may cut short many a mile.
So let courage ev'ry day
Be your guiding star alway.
Keep right on to the end of the road,

Keep right on to the end,

Tho' the way be long, let your heart be strong,
Keep right on round the bend.
Tho' you're tired and weary still journey on,
Till you come to your happy abode,
Where all the love you've been dreaming of

Will be there at the end of the road.    

  

                             - Sir Harry Lauder - 





Scotland, ye bonnie land VIII

 Um farol ao cair da tarde e a despedida sofrida a Skye





Depois da praia, tínhamos ainda algumas horas de luz para aproveitar em Skye, antes de nos termos que despedir da ilha e seguir viagem, em direcção a Inverness.
Queríamos continuar junto ao mar mais um bocadinho, por isso o destino seguinte pareceu-nos óbvio: nada melhor do que um farol situado em local idílico para acabar a tarde. Chegamos batidas a vento, gratas por ainda não termos apanhado um pingo de chuva e com os olhos a sorrir muito devido a tamanha beleza.







Desde que me lembro de ser gente que sou completamente fascinada por faróis - pelo edifício em si e a sua utilização, mas também por todas as histórias que normalmente lhes são associadas. Tempos houve em que queria habitar um, passando os dias a escrever junto ao mar e as noites a velar pela segurança de todas as navegações que cruzassem o horizonte. 






O vento fazia bailar uma ténue neblina por entre os montes e rochas, formando cortinas misteriosas junto às escarpas. Estava frio, mas por esta altura o nosso corpo já se havia habituado às agruras do clima escocês. O frio nas Terras Altas parece entranhar-se por cada poro da nossa pele, sendo depois imediatamente esquecido assim que os nossos olhos se deparam com aquelas paisagens e a nossa alma é embalada pelo sotaque melodioso e o sorriso franco das suas gentes. 



Dizer adeus a Skye avizinhava-se muito mais difícil do que alguma vez poderíamos ter imaginado. Uma boa parte de nós ficava para sempre por entre aquelas montanhas e lagos e espalhada ao longo da sua costa. Não sabíamos ainda o que fazer a tantas emoções ou como processar tudo o que tínhamos vivenciado em tão pouco tempo - dois dias que nos pareceram uma eternidade ansiada mas que tinham passado demasiado a correr.
Como que pressentindo a nossa tristeza, um pequeno grupo de corças e veados assomaram a um pequeno monte à beira da estrada para que nos pudéssemos despedir com um dos até breve mais sinceros das nossas vidas.



Tentando fintar o tempo que corria apressado aos nossos pés, ainda tentamos chegar às Fairy Pools com luz do dia suficiente para fazer o percurso até à cascata e poder nadar com as fadas. Quando chegamos ao estacionamento aconselhado, a noite caía a pique e um luar lindíssimo espreitava já por entre as montanhas. Deixamo-nos ficar ali alguns instantes, em silêncio, deixando a tristeza acalmar dentro de nós. As fadas teriam que ficar para uma próxima vez - como se precisássemos de mais algum motivo para voltar o quanto antes.


See you soon, my dearest!





Blessings be with ye, both now and aye 

      Dear human creatures! 

Yours is the love that no gold can buy! 
      Nor time wither 
Peace be to thee and thy children, O Skye! 
      Dearest of islands.

- Alexander Nicolson -



O Me! O Life!

O Me! O life! of the questions of these recurring,

Of the endless trains of the faithless, of cities fill’d with the foolish,
Of myself forever reproaching myself, (for who more foolish than I, and who more faithless?)
Of eyes that vainly crave the light, of the objects mean, of the struggle ever renew’d,
Of the poor results of all, of the plodding and sordid crowds I see around me,
Of the empty and useless years of the rest, with the rest me intertwined,
The question, O me! so sad, recurring—What good amid these, O me, O life?

Answer.

That you are here—that life exists and identity,

That the powerful play goes on, and you may contribute a verse.

- Walt Whitman -

Tempo suspenso.











Chamo-Te porque tudo está ainda no princípio 

E suportar é o tempo mais comprido. 

Peço-Te que venhas e me dês a liberdade, 
Que um só dos teus olhares me purifique e acabe. 

Há muitas coisas que eu quero ver. 

Peço-Te que sejas o presente. 
Peço-Te que inundes tudo. 
E que o teu reino antes do tempo venha. 
E se derrame sobre a Terra 

Em Primavera feroz precipitado.

Sophia de Mello Breyner Andresen -

* Fotografias do meu jardim, no primeiro dia de Primavera.