Mostrar mensagens com a etiqueta ar puro. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta ar puro. Mostrar todas as mensagens

Scotland, ye bonnie land IX

Culloden Moor em dia histórico e as pedras de Clava Cairns a chamarem por nós  




16 de Abril de 2019 - chegámos a Culloden Moor exactamente 273 anos após a infame batalha entre as tropas do governo britânico e os rebeldes jacobitas que tentavam colocar novamente um Stuart no trono, mais precisamente Charles Edward Stuart, mais conhecido como Bonnie Prince Charlie. Foi uma coincidência feliz, apesar do motivo que nos levou ali ir muito além do interesse histórico do local. 


Chão sagrado para os escoceses, é um sítio com uma energia incrível, apaziguadora, apesar de tudo o que ali se viveu. A sobriedade do lugar, dos monumentos e das pedras com o nome de cada clã, que servem de sepultura às muitas vidas precocemente ceifadas, conferem uma enorme dignidade àquele pântano onde ocorreu um dos mais sangrentos e decisivos eventos da História do país.  




Por algum motivo tínhamos que ali estar, e naquele dia 16 de Abril em particular. Foi como se um círculo se fechasse e de repente tudo fizesse muito mais sentido . 




Saí de lá em paz, com uma sensação de dever cumprido muito difícil de explicar. Nem é necessário, há coisas que vivem nas profundezas de nós mesmos e esta é uma delas. O que ali aconteceu em mim foi dos momentos mais serenos e bonitos que alguma vez vivi. Completamente  transformador, saiba eu honrar o que ali me levou e as lágrimas que lá deixei.



Clava Cairns é um lugar místico e de uma beleza tranquila, como se o tempo ali ficasse suspenso em cada pedra, obrigando-nos a caminhar mais devagar e a pisar o chão de forma suave. Tudo ali convida a uma certa introspecção e recolhimento, a uma viagem profunda por entre memórias e reminiscências antigas.  


Ao que tudo indica, o sítio data de 2000 a.C. e terá sido um local de celebrações fúnebres. Um misto de câmaras de sepultamento - os cairns, cujas entradas alinhadas para sudoeste deixam entrar, no solstício de Inverno, a luz do sol poente, iluminando toda a câmara central; e círculos de pedras, cuja finalidade está, ainda hoje, por conhecer na sua plenitude, transformando este e outros locais semelhantes, em sítios misteriosos e mágicos. 





Her Red Hair Rises with the Wings of Insects 

- Catherine Graham -



Scotland, ye bonnie land VII


A estrada que atravessa Dunvegan, o castelo visto de longe e a tristeza amainada num mar de coral.





Amanhecemos angustiadas, com um nó imenso no peito e a certeza do que precisava ser feito. Sabíamos que a Ji tinha poucos dias de vida e que tínhamos que chegar a Portugal o mais depressa possível. Passamos a manhã literalmente às voltas dentro de um supermercado - o único sítio onde conseguimos wifi, pois nem o 3g estava a funcionar. Comprar bilhetes para o Porto revelou-se tarefa quase impossível. Teríamos que voltar a Londres, pois não conseguimos vôo directo, e daí voar para Faro. Aí, apanharíamos o comboio até ao Porto. Os próximos dias iam ser longos e duros, física e emocionalmente - mas a melhor forma de honrar a vida da Judite, como ela mesma nos pediu, era aproveitar cada dia ao máximo. Assim tentamos fazer, fintando as lágrimas .




E como a Ji teria gostado de tudo o que vimos ali, naquela ilha abençoada. Sei que se teria divertido com os rebanhos de ovelhas que congestionam as estradas estreitas tanto quanto nós nos divertimos e que teria apreciado a mudança na paisagem a cada curva, monte após monte.





Estávamos a precisar de horizontes largos, paz e sossego naquela manhã já demasiado longa. Percorremos a estrada de Dunvegan e chegamos a parar junto ao Castelo, mas decidimos apenas fazer uma pequena pausa para café e seguir viagem, vendo apenas o edifício imponente de fora, junto ao lago. Uma luz cinzenta, com traços prateados sobre a água, convidava a um passeio pelas margens rochosas. O contraste das rochas pretas com as flores, sobretudo amarelas, que pintalgavam a paisagem à nossa volta, conferia um ar nostálgico ao cenário centenário.





De seguida, rumamos até à Claigan Coral Beach. Uma praia de águas cristalinas e corais era mesmo tudo o que podíamos pedir naquele início de tarde. Tínhamos lido que era uma das mais bonitas da ilha e, também por isso, uma das mais visitadas. Apesar de não nos apetecer muita confusão, resolvemos arriscar - e ainda hoje agradeço a todos os deuses que nos ajudaram a tomar essa decisão.
No início do trajecto que nos levaria à praia, uma pequena manada de vacas, algo dispersas, davam as boas-vindas a quem se atrevia a fazer o caminho dali para a frente. Curiosas q.b., mas sem nos darem muita confiança, continuavam a sua vida enquanto posavam para as fotografias, como quem não quer a coisa.






O caminho até à praia, apesar de algo sinuoso, não é de dificuldade demasiado elevada. Vale cada passo e a vista sobre a praia é de tirar o fôlego. De repente, um areal dourado, repleto de conchas e corais e um mar de águas transparentes e cristalinas aparece à nossa frente como o cenário de um filme em paragens distantes. Ouvem-se ruídos estranhos vindos da água e a ondulação mais agitada faz perceber a presença de curiosos e inquisitivos pares de olhos a espreitar por entre as ondas: focas, muitas, a nadar e a brincar e a perguntar "mas o que raios fazem vocês aqui?!". Ganhamos o dia naquele momento e foram a companhia perfeita para um piquenique na areia fria. Pessoas, graças aos deuses, não havia em demasia. Uma família francesa com cinco filhos em escadinha, que desfrutaram da praia como crianças felizes, livres e soltas e uma mão cheia de outros visitantes que se estenderam pelo areal quase sem darmos por eles. De resto, só mesmo o barulho do rebentar das ondas, o vento que encanava nas rochas e as nossas novas amigas, que apesar do frio, continuavam a dar piruetas na água gelada.






Querida Ji:

Cumprimos o prometido - aproveitamos cada instante. Estiveste lá sempre connosco, sei que o sentiste, também. Tive a certeza disso quando te dei um beijo, assim que cheguei à tua beira. 

A Mourinha diz que as minhas sopas estão quase tão boas como as tuas. Não uso cubos, mas descasco e corto os legumes com uma faca pequenina, como tu. 

Continuas presente entre nós, para sempre. Sei que estás algures a barafustar com os avós e a cuidar deles, como fizeste com todos nós, a vida inteira. 

Temos saudades tuas. Tantas.


















Scotland, ye bonnie land VI

Final de tarde em Skye: como a Natureza sempre desperta a criança que há em nós 

Depois de nos termos recomposto um pouco com o almoço alancharado no simpático pub com vistas para o mar, voltamos à estrada. Havia ainda algumas coisas que queríamos ver antes de irmos procurar o Airbnb onde iríamos passar a noite. No entanto, muito mais do que riscar monumentos e sítios de visita obrigatória, queríamo-nos perder por entre montes e vales, ficar em êxtase a cada virar de curva na estrada e absorver tudo, com a curiosidade e a alegria genuína das crianças.
Em poucos sítios me senti tão livre como naquelas terras altas, tão sem amarras, tão em paz comigo mesma. Com uma sensação de querer, e conseguir, conquistar o mundo. Sem medos.






Um dos sítios que não queríamos deixar de visitar é um mirante de onde é possível observar e apreciar uma impressionante cascata de água doce sobre o mar - a Mealt Falls. É um espetáculo da Natureza magnífico e hipnótico. A força da água a cair sobre o mar num fluxo constante, imparável, remeteu-me para o decorrer da vida e do tempo. Há que aproveitar o seu curso incessante da melhor maneira e mergulhar no mar, de forma esperançada.
As falésias que se desenham naquela costa da península de Trotternish fazem lembrar o padrão de um kilt escocês, com os seus vários tons entrançados, quase um tartan perfeito - daí o nome de Kilt Rock. É, muito seguramente, algo melhor apreciado do mar, de onde se consegue ver as enormes rochas em toda a sua dimensão e esplendor. Contudo, o pouco que se consegue visualizar do cimo da falésia, vale bem a pena os quilómetros percorridos para lá chegar. 
Ali, novamente, foi possível sentir uma energia única, que nos transportou para tempos e lugares ainda mais remotos. É um lugar com uma aura particular, ajudada pelo som algo enigmático produzido pela vedação metálica do ponto de observação, cujos canos, quando soprados pelo vento, emitem um som vibrante e estridente a fazer lembrar o canto das baleias que, dizem, de vez em quando ainda é possível avistar naquela zona. É verdadeiramente assombroso. 











Completamente embaladas por aquele cenário e pelo canto do mar, do vento e das baleias, seguimos viagem rumo à remota cottage onde iríamos pernoitar. Pelo caminho, ainda houve tempo para apreciar o pôr-do-sol sobre o mar, correr sobre a relva verde e brincar à apanhada e às escondidas com um pequeno rebanho de ovelhas que vive em pequenos apartamentos com vista para o mar. Foi dos momentos mais hilariantes de toda a viagem, completamente relaxadas, só nós, as ovelhas e o mar. 


















Liberdade, é a definição perfeita para aquele fim de tarde. Conexão com a Natureza e todo o meio envolvente o seu nome do meio - e o mar como horizonte a minha definição particular de felicidade total. 








O nosso alojamento para essa noite, apesar de um pouco fora de mão e completamente alheio a grandes ajuntamentos de pessoas, revelou-se o sítio ideal para terminar um dia tão cheio de emoções e coisas bonitas. Rodeadas de um sossego absoluto, alguns animais e quase sem ver vivalma, aguardamos o cair da noite em paz. 



(continua...)